Copa do Mundo é tema de aulas em escola

Com auxílio de todos os professores e funcionários, alunos pintaram muro da escola com suas próprias silhuetas; competição também foi abordada nas disciplinas de Geografia e História

Estudantes do 1º ao 3º ano desenharam o mascote da Copa 2014 no muro principal (Foto: Túlio Darros/O Semanário)

Estudantes do 1º ao 3º ano desenharam o mascote da Copa 2014 no muro principal (Foto: Túlio Darros/O Semanário)

A Copa do Mundo invadiu as salas de aula e os muros da Escola Estadual Bispo Dom Mateus, em Mombuca. A menos de um mês para o início do Mundial de futebol e, em meio a inúmeras manifestações contra sua realização no Brasil devido aos gastos abusivos, professores, funcionários e diretoria se uniram para levar a 200 alunos de ensino médio um pouco de conhecimento acerca dos 32 países que disputarão a competição a partir do dia 12 de junho.

O projeto “Bispo na Copa” começou nas aulas de Geografia, com o professor Luiz Cláudio Tempesta. Idealizador do projeto, ele conta que a disciplina trabalhou vários aspectos de cada país, como a língua, a população, a área e o continente, além das bandeiras. “Nós montamos as bandeiras numa cartolina e, embaixo, colocamos as características dos países”, explica.

Na sequência, os estudantes fizeram um mapa mundi, no qual pintaram apenas os países que virão à Copa. Depois, durante as aulas de História, também ministradas por Tempesta, pesquisaram fatos históricos de cada nação. Em paralelo, a professora de Artes Angela Quagliato realizou um concurso de silhuetas e selecionou os melhores desenhos para fazerem parte da nova pintura externa.

“Terminados os trabalhos de Geografia e História, medimos o muro da escola e o dividimos em 32 partes para desenharmos todas as bandeiras na mesma sequência da tabela de jogos”, recorda o professor.

Segundo a diretora, Kátia Barbosa, a ideia era criar jogadores em movimento. “Os ganhadores do concurso se posicionaram no muro, a Angela os desenhou e depois eles mesmos pintaram. Foi um trabalho legal e saiu melhor do que esperávamos, tanto em relação ao envolvimento, quanto ao resultado final. Quando você vem de Rio das Pedras dá um efeito interessante”, afirma.

Muro da Escola Bispo Dom Mateus foi pintado pelos próprios alunos (Foto: Túlio Darros/O Semanário)

Muro da Escola Estadual Bispo Dom Mateus foi pintado pelos próprios alunos (Foto: Túlio Darros/O Semanário)

Durante 40 dias, o projeto “Bispo na Copa” envolveu todos os alunos do período vespertino e noturno – não há aulas matutinas –, os 15 professores e os dez funcionários da Escola Bispo Dom Mateus. “A Prefeitura ajudou com as tintas”, completa Kátia.

Para encerrar as atividades, Luiz Cláudio Tempesta pensa em sortear os países participantes entre os estudantes de cada turma e, aqueles que tirarem o futuro time campeão ganharão um “super” prêmio ainda não determinado. Em virtude do final da Copa, que se encerra na metade de julho, os sortudos serão conhecidos após as férias. Até lá, os alunos terão que torcer pelos países que estiverem no “papelzinho”. Alívio para aquele que tirar o Brasil.

O estudante do 2º ano Vinícius Papa, 16, diz ter aprendido bastante com o projeto. Para ele, trata-se de uma iniciativa importante para a valorização da escola como um todo. “Aprendemos muito sobre os países, sua população e habitantes”, conta o aluno, cuja participação nas atividades chamou a atenção de Kátia e Tempesta.

“Eu pintei a bandeira [do Brasil], ajudei a pintar a parte branca, ajudei em quase tudo. Foi a minha primeira experiência com pintura, mas agora já dá até para pintar casas, trabalhar como pintor”, brinca Papa.

O reflexo das manifestações

A última Copa do Mundo realizada no Brasil aconteceu em 1950. Hoje, 64 anos depois, uma competição de nível mundial como essa já não recebe mais o mesmo apreço que antigamente, especialmente dos mais jovens. Mesmo distantes dos atos contra a Copa, os estudantes da escola estadual apoiam os movimentos. “Eles acham que outros setores têm prioridades”, revela o professor de Geografia, História e vereador de Mombuca.

Segundo Tempesta, a opinião da maioria dos adolescentes pôde ser percebida durante uma aula de Filosofia, na qual se discutiu a respeito dos “rolezinhos” (encontros de centenas de pessoas em locais públicos, como shoppings centers). “E, eles também apoiam os ‘black blocs’ [agrupamento de pessoas para uma ação ou propósito conjunto]. Deve ser influência da mídia ou porque são jovens, não sei dizer.”

No entanto, acrescenta, o projeto “Bispo na Copa” foi bem aceito em todas as turmas, devido ao bombardeio de informações relativas ao tema também divulgadas pela imprensa nacional. “Os alunos adoram porque a mídia só fala nisso. Então, eles se envolvem porque querer ficar por dentro do assunto.”

Contudo, para fazer com que os estudantes reflitam antes de acreditarem nas manchetes dos grandes jornais, Kátia deixa claro que os professores conversam com os jovens. “Discute-se a parte positiva e a negativa, porque não podemos apresentar algo como ‘não tem saúde, nem educação no Brasil por causa da Copa’. E os anos que não tivemos Copa? Por que a saúde e a educação não foram nota dez?”, questiona a diretora.

Em uma cartolina, cada aluno desenhou as 32 bandeiras com informações sobre os países que virão para o Brasil disputar o Mundial de futebol (Foto: Laila Braghero/O Semanário)

Em uma cartolina, cada aluno desenhou as 32 bandeiras com informações sobre os países que virão para o Brasil disputar o Mundial de futebol (Foto: Laila Braghero/O Semanário)

Argentina Frances

Na Escola Municipal Professora Argentina Frances, o tema do projeto desenvolvido este ano também é a Copa do Mundo, assim como em todas as unidades de ensino da Rede Municipal de Educação de Mombuca. Uma das atividades foi a pintura do muro da escola.

Um grupo de alunos, orientados pelo professor de Artes e Música Israel Pereira, fez pinturas alusivas à Copa em várias extensões da parede. A ideia motivou os estudantes, os quais estão preparando agora uma exposição temática. De acordo com a direção da escola, as atividades são desenvolvidas nos ciclos I e II do ensino fundamental.

Os projetos e atividades relacionados a temas atuais estão sempre presentes na Rede Municipal de Educação, segundo a prefeita Maria Ruth de Oliveira (PR), com o objetivo de levar o aluno a refletir e aprender com a realidade do país.

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Publicada na página 13 da edição 1152 do jornal O Semanário, em 23 de maio de 2014.

Capivari e Rafard disponibilizam poucas vagas para pessoas com deficiência

Número de contratações de empregados com deficiência nas duas cidades é inferior ao aumento registrado no estado

Dos currículos cadastrados no PAT de Capivari, apenas 30 são de pessoas com deficiência (Foto: Reprodução/Bigstock)

Dos currículos cadastrados no PAT de Capivari, apenas 30 são de pessoas com deficiência (Foto: Reprodução/Bigstock)

O número de pessoas com deficiência inseridas no mercado de trabalho cresceu 173% no estado de São Paulo nos primeiros três meses deste ano em comparação com o mesmo período de 2013, o equivalente a 297 contratações, conforme dados divulgados pelo Programa de Apoio à Pessoa com Deficiência (Padef), coordenado pela Secretaria de Estado do Emprego e Relações do Trabalho (Sert).

A quantidade de vagas oferecidas também apresentou aumento. Foram pelo menos dez mil oportunidades, o que representa 300% a mais se comparado com o ano anterior. No entanto, em Capivari e Rafard a situação é outra.

De acordo com dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) referentes ao ano de 2013, o Posto de Atendimento ao Trabalhador (PAT) de Capivari ofereceu, por meio do Padef, apenas 12 vagas para pessoas com deficiência. Dessas, cinco foram procuradas por essas pessoas, cujo PAT inscreveu nove e encaminhou 26 para entrevistas. Somente uma conseguiu emprego.

Em oposição, o secretário de Desenvolvimento Econômico de Capivari, Flavio Baggio, afirma que existe a procura tanto por parte das empresas, quanto pelo profissional. “Quando as pessoas com deficiência procuram o PAT, não medimos esforços para conquistar parcerias junto às empresas, na busca de uma oportunidade no mercado de trabalho”, garante.

“O mesmo acontece quando as empresas realizam a abertura de vagas para estes profissionais: acionamos os órgãos competentes e parceiros como o Ceamec [Centro de Apoio Multidisciplinar de Educação Especial de Capivari], a Diretoria de Inclusão Social e a Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida”, completa Baggio. Para ele, a contratação de pessoas com deficiência deve ser vista como qualquer contratação.

“Todo ser humano possui limitações em graus diferenciados. No caso das pessoas com deficiência, elas são mais elevadas, mas não impedem o profissional de realizar determinadas funções.” Porém, adverte que sejam enquadradas dentro das possibilidades, “assim como ocorre em processos seletivos”.

O Sistema de Intermediação de Mão de Obra (Mais Emprego MTE), utilizado pelo PAT de Capivari, indica que dos currículos cadastrados atualmente, 30 são de pessoas que possuem algum tipo de deficiência. Ao mesmo tempo, quatro empresas disponibilizam vagas para elas no PAT.

Mas, segundo a Lei Federal nº 8.213, toda empresa com 100 empregados ou mais deve destinar de 2% a 5% de seu quadro a reabilitados ou pessoas com deficiência, e a dispensa de tal funcionário só pode ocorrer após a contratação de substituto em condição semelhante. Para Baggio, “o fato de proporcionar a essas pessoas uma colocação no mercado de trabalho muitas vezes está além de oferecer uma remuneração mensal, e sim a oportunidade de reabilitação social e psicológica”.

A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), de Capivari, oferece orientação às famílias de pessoas com deficiência, a fim de conscientizar a respeito da importância e do que muda na vida do jovem quando inserido no mercado de trabalho. “A gente também oferece orientação para as empresas interessadas em contratar alguns de nossos jovens. Fazemos contato com elas, enviamos questionários. Mas nem todas respondem”, conta a diretora da Apae, Rute Siviero.

O projeto “Educação Profissional Básica e Colocação no Mercado de Trabalho” é responsável pelo envio de currículos cadastrados no banco de dados e orientação às empresas para as entrevistas. “A gente coloca no jornal, entra em contato. Até mandamos alguns jovens para entrevistas, mas acho que não é o perfil que a empresa precisa. Estamos com um pouco de dificuldade para incluir as pessoas com deficiência intelectual no mercado de trabalho. Essa é a verdade”, admite.

Rute explica que a Apae cadastra inclusive currículos de pessoas que não estão na instituição, pois “é um direito deles trabalhar”. E isso inclui jovens de Rafard, Mombuca e Monte Mor. A dificuldade em inserir essas pessoas faz com que a diretora tema que a Lei de Cotas não seja cumprida na região. “Mas a gente apela até para os empresários que não precisam cumprir a lei, que deem uma oportunidade.”

“Temos um testemunho de uma empresa aqui de Capivari que não tem mais de 100 funcionários, no entanto, um ex-aprendiz nosso trabalha lá há anos. Ele é um exemplo lá dentro. O pessoal gosta muito e ele trabalha super bem”, comenta Rute.

A importância de uma vaga

O estado possui mais de nove milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, segundo a Padef. Dos quais, cinco milhões (48%) têm uma ocupação. Conforme dados do Censo Demográfico 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2,8 milhões de pessoas com deficiência possuem ensino superior completo (incluindo mestrado e doutorado). Em tese, o número é mais que suficiente para suprir as 937 mil vagas potencialmente criadas pela Lei de Cotas no país.

O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), órgão do Poder Executivo federal, é responsável pela fiscalização das empresas, com o intuito de detectar o cumprimento da legislação ligada ao trabalho. Em caso de descumprimento da Lei de Cotas, pode haver multa e encaminhamento de relatório ao Ministério Público do Trabalho para as medidas legais cabíveis.

Rosângela Orlandin da Silva, 50, é mãe de Isabeli, 26. Há três anos as duas estão em busca de um emprego para a filha, portadora de síndrome de Down. A jovem, que estuda na Apae de manhã e à noite frequenta a escola Professor Luís Grellet, em Rafard, não quis mais estudar e perdeu o segundo semestre de 2013, depois de passar por uma entrevista numa empresa de Capivari e pensar que estava contratada.

“Ela já fez entrevistas em três empresas. Na última, mostraram até o setor de serviço. Sabe quando deixam a pessoa entusiasmada, pensando que você vai dar uma coisa e não dá? Na cabecinha dela, ela estava empregada. Falava para todos que ia trabalhar e que não precisaria mais ir à Apae, nem estudar à noite”, revela Rosângela.

Com isso, a mãe de Isabeli decidiu que não a levaria mais em nenhuma empresa. “Se for para deixar ela assim eu não vou”, enfatiza. “Eles pedem pessoa com deficiência, mas que seja deficiente auditivo. Daí é bem mais fácil, né? Eles não pegam pessoa com deficiência intelectual.” Isso porque antes de serem encaminhados às empresas, os candidatos com condições de trabalhar são pré-selecionados e entrevistados pela própria Apae.

O jornal O Semanário entrou em contato com as empresas Branyl, Capricho, CPIC Fiberglass, Lolly, Microsal, Unimed Capivari e Rigitec, entretanto, apenas uma se pronunciou sobre o assunto. A Rigitec, cujas unidades estão localizadas em Capivari e Cachoeirinha (RS), diz possuir deficientes em seu quadro de funcionários. No ano passado, a metalúrgica colocou anúncios nos jornais da região para “divulgar algumas vagas pendentes para deficientes”, e afirma ter preenchido a cota.

“Temos funcionários com várias deficiências e em diversos setores, entre eles qualidade e produção. No caso, duas moças com deficiência auditiva, as quais são excelentes funcionárias”, relata a analista de RH Silvana Benatti. Até o fechamento desta edição, O Semanário não havia sido autorizado pela Rigitec a entrevistar nenhum de seus funcionários.

Em paralelo, a redação entrou em contato com uma oitava empresa, a Saint-Gobain Brasilit, a fim de conversar com outra funcionária, mas também não foi autorizada, sob a justificativa de que o pedido foi avaliado internamente e optou-se por “não expor os colaboradores que possuem deficiência”.

Ainda de acordo com a RAIS, dos 3.296 rafardenses empregados, apenas um é portador de alguma deficiência com um salário de R$ 596 para trabalhar no ramo da Indústria de Transformação. Em Capivari, o número de pessoas assalariadas sobe para 15.046. Dos quais, 106 possuem algum tipo de deficiência. A média de salário é de R$ 1.530 e os setores variam.

Para Rosângela, quando as empresas conscientemente ou para cumprir a lei disponibilizam vagas para jovens como Isabeli, oferecem a oportunidade para que as pessoas com deficiência aprendam algo novo, saiam de casa. “O emprego é importante para o convívio, para que elas conheçam pessoas diferentes. Eu achava bom, sabe? Porque pelo menos você está incentivando o seu filho. Se deixarmos eles parados, não vão sair do lugar”, conclui a mãe.

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Publicada na página 9 da edição 1151 do jornal O Semanário, em 16 de maio de 2014.

Ginásio de Esportes Antônio Cerezer é demolido

Prédio foi derrubado pela Prefeitura de Rafard na última semana; espaço estava abandonado desde 2007

Ginásio deu lugar a entulhos e assustou cidadãos (Foto: Túlio Darros/O Semanário)

Ginásio deu lugar a entulhos e assustou cidadãos (Foto: Túlio Darros/O Semanário)

O Ginásio de Esportes Antônio Cerezer, situado no Centro Esportivo Reinado Fontolan (Cepar), em Rafard, foi demolido pela Prefeitura na última semana, sem aviso prévio à população. Inaugurado em 2004, foi aproveitado durante dois anos e, devido a um processo judicial, em 2007 ficou impedido de ser utilizado e estava abandonado desde então.

No lugar do ginásio, quem foi até o Cepar na quinta-feira, 1º de maio, para participar do evento em comemoração ao Dia do Trabalhador, se deparou com entulhos, cacos de vidro e objetos queimados em meio a pedaços de fantasias, os quais evidenciavam estar guardados no interior do prédio.

O ex-prefeito de Rafard, Antônio Carlos Cerezer, foi uma das pessoas a se dar com a surpresa naquele dia. “Me senti profundamente triste e revoltado ao ver tudo derrubado e voltei para casa imediatamente”, desabafou em contato com O Semanário. O ginásio foi construído por ele e levava o nome de seu pai, Antônio Cerezer. Questionada sobre o assunto, a Prefeitura comunicou que estava levantando as informações, porém não respondeu até o fechamento desta edição.

Segundo o vereador Marcelo Frederico (PTB), a Câmara Municipal “não teve conhecimento algum sobre esta ação”. “Só ficamos sabendo do ocorrido quando passamos pelo local no dia de um evento, no campo”, conta. Para ele, a decisão demonstrou falta de profissionalismo por parte da administração atual, a mesma que “passa por cima de tudo e de todos, inclusive do Legislativo”.

“Será que eles sabem o que é democracia? Pois estamos empenhados em fazer valer isso, sempre ao lado do bem maior, que é a comunidade. Já estamos fiscalizando o ocorrido e esperamos que tenha sido legal, caso contrário, providências serão tomadas”, frisa. “Em Rafard, uma administração destrói a outra, por politicagem barata, e quem paga por isso é a comunidade. Lamentável”, critica Frederico.

Após uma forte chuva de granizo que atingiu a cidade no dia 10 de março, a Defesa Civil do município interditou o ginásio de esportes, em razão do destelhamento causado pelo temporal. Na ocasião, o coordenador da Defesa Civil, Márcio Jacob Hessel, disse que não havia “nada de concreto em relação à demolição”.

Igualmente, o prefeito César Moreira (PMDB) garantiu que estava em busca da regularização da escritura do terreno do Cepar, para que fosse possível solicitar, mais à frente, verbas para a reforma. “Precisamos trabalhar para que sejam realizadas ações efetivas e de qualidade para o ginásio e para o Cepar de forma geral, e sabemos que isso leva tempo. Não podemos investir em medidas paliativas. Estamos trabalhando para transformar o Cepar, a médio e longo prazo, em um centro esportivo de referência regional”, afirmou há menos de dois meses.

Para o vereador Alexandre Juliani (SDD), presidente da Câmara, o ginásio deveria ter sido reformado e aproveitado pela população, uma vez que se tratava de um patrimônio público. Segundo ele, muito dinheiro deve ter sido gasto para construí-lo e mais ainda agora, para demoli-lo. “Na próxima sessão entrarei com alguns requerimentos sobre o ginásio”, destaca.

A perda, defende o aposentado Ricardo Tonin, 48, deve ser amparada pelos idealizadores do Ginásio de Esportes Antônio Cerezer. Ou seja, prefeito e vice que o construíram durante a gestão 2001-2004. “Os administradores da época devem pagar o prejuízo”, enfatiza. Por outro lado, não se sabe ainda por que o prédio foi demolido.

“Foi mais cômodo deixar o processo se arrastar e o prédio se deteriorar a ponto de ter que ser demolido. A pergunta que fica é: ‘quem é o maior responsável ou irresponsável por este fato? Aquele que fez sem seguir estritamente as normas de segurança ou aquele que, com pretensões não claramente expressas, permitiu que hoje víssemos este triste episódio? Na realidade, o verdadeiro culpado sou eu que não soube escolher o melhor quando deveria”, lamenta o advogado Luis Fernando Zape, 30.

A inspetora de alunos, Regina Reis, 54, presidente do PSDB Mulher de Rafard, diz ter levado um susto ao ver tudo demolido. “Esperávamos que ainda houvesse solução, mas infelizmente estamos vendo desperdício de verbas públicas em nossa cidade”. Dinheiro este, lembra, “proveniente dos impostos que a população paga e que retorna ao município através de emendas parlamentares”. “O ginásio virou entulho sem ter sediado nenhum evento importante na cidade, fora sua inauguração.”

Nota da redação

Resta aguardar mais informações a respeito dos critérios utilizados pelo governo municipal para tal decisão, bem como por que a medida não foi anunciada com antecedência à população, considerando que o prédio se tratava de um patrimônio público. A assessoria de comunicação da Prefeitura de Rafard garantiu que se pronunciará até a próxima edição.

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Publicada na página 5 da edição 1150 do jornal O Semanário, em 9 de maio de 2014.

O ponto

Talvez Antônio morra amanhã. Talvez hoje. Ou depois de sua mulher, Maria. Mulata humilde, porém forte, guerreira e cheia de fé. Exímia dona de casa, não tira seu avental bordô, manchado pelo uso contínuo. O casal passou a vida inteira tentando construir um caminho feliz, mas o tempo é inimigo dos dois. De todos. Sempre foi. Há quem diga que é preciso se juntar a ele para não ser boicotado por suas aflições.

Naquele dia, Antônio se distraiu com uma joaninha pousada ao lado da rosa artificial da esposa, que há 20 anos embeleza a janela do pequeno quarto, poluída pelo tráfego. Percebe os pontinhos pretos combinando com os três pares de patinhas miúdas, bolinhas suaves no cardigan vermelho. Queria ser como ela: sem preocupações, dívidas para pagar e inúmeras obrigações a cumprir sem tempo para respirar.

Quarta-feira. Sentado no ponto de ônibus azul recém-construído, se pergunta por que o motorista do transporte público estava cinco minutos atrasado. Olha para o relógio e, quase sem querer, calcula a quantidade de carros que passa pela principal avenida da cidade por segundo: média de três. Ah, aquela famosa avenida por onde já transitaram tantos trabalhadores perdendo a hora, ou perdidos por ela.

O 543 aponta lá na esquina e Antônio vê. Com a malinha de couro na mão esquerda, herdada pelo pai, o homem baixo, moreno e de poucos cabelos se levanta e estica o braço direito para não correr o risco de ter de esperar a próxima condução, dali a 20 minutos. Pensa na mulher, que ficara em casa lavando roupas. Como ele a amava. Haviam construído uma família sólida: três filhos e um cachorro.

Ludibriado pelos pensamentos afetivos, não sentiu quando o Porsche preto e embriagado avançou o sinal às 6h05 e subiu a calçada do ponto sem hesitar. Acertou em cheio o pequeno sobrado de Antônio, e de Maria. Derrubou tudo o que ainda poderia ser criado ou pelo menos reformado pelos dois. Os sonhos ficaram estendidos na calçada, a dez metros dali. Ao desconhecido, que fugiu logo em seguida, nada aconteceu.

Talvez se Antônio tivesse parado para contemplar outras joaninhas, teria se atrasado mais e perdido o ônibus. Talvez se a rosa fosse de verdade e pedisse alguns minutos para ser regada, teria se atrasado mais e perdido o ônibus. Talvez se a vida não fosse tão ingrata. Talvez se o Porsche não estivesse descontrolado. Talvez se o ponto não tivesse sido construído, teria se atrasado mais e perdido o ônibus. Mas não teria perdido a vida.

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Texto de ficção. Exercício de escrita rápida produzido para o curso de pós-graduação em Jornalismo Literário na EPL, em 13 de junho de 2015.

Isabel e Marisa: a força de duas gerações de mães

Catadora de materiais recicláveis há dez anos, Isabel é mãe de oito e avó de mais oito; juntas, ela e a filha sustentam casa com 11 pessoas

Marisa, Isabel e metade dos netos (Foto: Laila Braghero/O Semanário)

Marisa, Isabel e metade dos netos (Foto: Laila Braghero/O Semanário)

Isabel de Camargo Gaion tem 62 anos e recolhe reciclagem há dez. Mãe da auxiliar de produção Marisa de Fátima Gaion, 36, e de mais sete, divide uma pequena casa com a filha e oito netos, no bairro Engenho Velho, além do filho Luis, de 40 anos. Nascida em Mombuca, a senhora com pouco mais de um metro e meio passou por algumas cidades do interior ao lado do já falecido marido, até que fixou morada em Capivari.

Quando a filha de Isabel se tornou mãe pela primeira vez, há 19 anos, a família vivia em Indaiatuba, mas Marisa trabalhava em São Paulo. “Todo final de semana eu voltava para a casa da minha mãe em Indaiatuba. Foram três anos assim. Eu era babá de uma das filhas da Mara Maravilha”, conta. Com o primeiro marido, teve quatro filhos: Daniela, 19, Adriano, 17, Caio, 16, e Leonardo, 14.

Depois, trabalhou 11 anos numa padaria. Ao separar-se do companheiro, mudou com Isabel para Salto e, na nova cidade, arrumou emprego como doméstica. “Daí o pessoal da padaria montou uma filial em Salto, e eu trabalhei com eles dois anos”, diz a mulher. Lá, foi morar com o segundo marido, com o qual teve mais quatro filhos: Ronaldo, 11, Carlinhos, 10, Tiago, 9 e Jesus, que vai completar 8 anos dia 16.

Isabel e Marisa vivem história real de superação (Foto: Laila Braghero/O Semanário)

Isabel e Marisa vivem história real de superação (Foto: Laila Braghero/O Semanário)

“A gente ficou um bom tempo junto, uns sete anos. Mas não deu certo, porque ele começou a bater em mim e nos meus filhos.” Na época, Marisa morava na Vila Izildinha, já em Capivari. Segundo ela, os inúmeros boletins de ocorrência nunca deram resultado. As agressões só pararam depois que os vizinhos, juntos, fizeram com que o homem pagasse na mesma moeda.

Após a separação, a filha de dona Isabel decidiu morar com a mãe. O ex-marido, recorda, pagou pensão por um breve período. “Mas aí a mãe dele morreu lá no Norte e ele foi pra lá dividir os bens. Naquele ano eu catava reciclagem com a minha mãe e o meu caçula tinha nove meses. Cadê que ele falou ‘toma uma caixa de leite pro nosso filho’?”

Passados dois anos, o ex-genro de Isabel voltou a dar as caras. “Eu estava fazendo faxina na casa da vizinha. Ele veio num sábado e levou as crianças para o bar. Daí eu fui lá, trouxe os meninos de volta, chamei a polícia e pedi a ele que nunca mais aparecesse na minha porta. Desde então, nunca mais veio. E nunca mais quis saber se as crianças estão vivas, se estão precisando de alguma coisa. Eu também não vou atrás. A consciência é dele”, dá de ombros.

Catadora de materiais recicláveis é a matriarca da família Gaion (Foto: Laila Braghero/O Semanário)

Catadora de materiais recicláveis é a matriarca da família Gaion (Foto: Laila Braghero/O Semanário)

Na terra do Leão da Sorocabana, mãe e filha passaram a sustentar a família por meio da venda de materiais reaproveitáveis. Começou com latinhas e logo já recolhiam de tudo. “O médico mandou minha mãe fazer caminhadas, e a pessoa com quem ela andava catava latinha na rua. Daí, minha mãe começou a catar também”, explica Marisa.

Em pouco menos de um ano, a auxiliar de produção parou de ajudar dona Isabel e foi trabalhar de doméstica. Dois anos depois, achou melhor tornar-se diarista, para ter mais tempo com os filhos: levá-los ao médico, à escola etc. Numa das casas, conheceu quem são hoje seus empregadores. “Eu fazia faxina para eles, até que me convidaram para trabalhar na fábrica que estou até agora – uma lavanderia de jeans –, faz três anos”, completa.

Enquanto isso, Isabel continuou nas ruas com seu carrinho, feito pelo vizinho, seu Valdemar. “Já é o terceiro.” Fazia sol ou chuva, a senhora enfrentava as longas subidas e descidas do bairro apanhando reciclagem. “Eu ia até lá pros lados do Chiarini. Às vezes ia meio nervosa, chorando, sozinha. Eu e Deus”, revela a catadora. Segundo ela, o carrinho feito de madeira, quando cheio, é pesado demais. “Jesus do céu.”

(Foto: Laila Braghero/O Semanário)

Em Capivari, mãe e filha começaram com latinhas e logo já recolhiam de tudo (Foto: Laila Braghero/O Semanário)

No entanto, há um ano a mulher deixou de ir tão longe. “Ela está meio adoentada”, conta Marisa. Hoje, dona Isabel passa recolhendo materiais recicláveis até num raio de, no máximo, 300 metros. Em compensação, os doadores fiéis levam o lixo reciclável até ela. “Tem um homem que traz bastante. Ele deixa aquela montoeira, sabe? Outra traz lá do Centro. É uma mulher com um ‘carrão’ chique.”

“Até de domingo ela sai pra pegar”, fala Marisa sobre a mãe. “Ela é evangélica. Domingo, eram umas sete horas da noite, tinha gente entregando reciclagem. Ela não sabia se ia à igreja ou se pegava a reciclagem. Então eu falei ‘vá à igreja, né! Eu pego pra você’.”

Mesmo levando uma vida digna, trabalhando intensamente para garantir comida na mesa e educação aos oito filhos de Marisa, há quem destile preconceito contra esta família. “O vizinho da frente disse que não faz festa na casa dele porque tem vergonha da gente. E a que morava aqui ao lado chamou a Vigilância Sanitária uma vez”, afirma a filha de Isabel.

(Foto: Laila Braghero/O Semanário)

Ronaldo ao lado da avó e da mãe (Foto: Laila Braghero/O Semanário)

De acordo com ela, a empresa que recolhe o material separado pela catadora passa a cada 15 dias. Com isso, o órgão fiscalizador “viu que é tudo bagunçado”. “Mas minha mãe não tem culpa. Além disso, não há nada aqui que possa servir de criadouro de bichos ou dengue. Ela cobre tudo com plástico e está sempre de olho”, assegura. E acrescenta que a vigilância constatou não haver nada errado.

Sobre o faturamento da mãe, Marisa diz que é insuficiente para abastecer a casa, a qual está em nome de Isabel e três tios. O setor de reciclagem, alega, está “bem desvalorizado”. Segundo a filha da catadora, as garrafas pet valem mais. O papelão é o mais barato: R$ 0,25 o quilo.

Por outro lado, dois dos filhos já ajudam a sustentar as 11 pessoas que vivem na casinha. Enquanto a mais velha, Daniela, trabalha numa loja de roupas, Adriano, de 17 anos, integra a equipe de produção de uma fábrica relacionada ao mesmo estabelecimento.

Guerreiras, as duas gerações estão diretamente envolvidas com a prática sustentável de reutilizar alguns itens – apenas lixo para a maioria – como matéria-prima para a fabricação de novos produtos. A iniciativa, embora recorrente nos dias de hoje, infelizmente não é a fonte de renda principal destas matriarcas, devido ao baixo preço pago pelos compradores maiores.

E, para completar, Marisa não recebe auxílio do governo federal. Ela cadastrou os filhos no programa Bolsa Família em 2007 e, em 2009, foi contemplada. Porém, um deles faltou muitas vezes à escola no ano passado, fazendo com que todos perdessem o direito ao benefício. “Há pouco tempo fui recadastrá-los, mas a moça disse que agora preciso esperar o encaixe. Eu recebia de cinco filhos. De três sempre ficou pendente, não sei por quê.”

Diagnosticada com 80% de trombose nas duas pernas em razão da quantidade de gravidezes e à genética, está recém-operada. Precisou marcar quatro vezes a operação para, enfim, se ver livre da doença. “Eu ia à Santa Casa de jejum e nada de fazerem a cirurgia. Agora, além dos 15 dias de repouso, o médico me deu uma carta para levar ao INSS, para que eu fique um pouco afastada, porque trabalho em pé, das 7h às 17h.”

Em clima de Copa do Mundo, Marisa lembra que há 12 anos entrou em trabalho de parto durante o jogo que consagrou o Brasil pentacampeão. “A partida acabaria às 11h. Eram 10h quando comecei a sentir contrações. Estava um tumulto que só. Em homenagem, optamos por colocar o nome do meu filho de Ronaldo”, destaca sorridente, chamando para a conversa o menino magro, cuja altura já passa a mãe. “Não é, Ronaldo?”

Quanto à essência da vida, a mãe de Marisa e avó de oito netos aconselha que, independentemente de qualquer coisa, as pessoas precisam ser mais alegres e ter paz no coração. Feliz por viver ao lado da “netaiada”, dona Isabel admite não saber ficar sem eles. “Quando não estão aí, a gente acha falta”, diz. “Se estou triste, vou chegando pertinho da criançada e já me alegro”. O que importa, para ela, é ter uma família unida. “Nesse mundo, todos temos que ser unidos, né?”, conclui a catadora.

(Foto: Laila Braghero/O Semanário)

Isabel sai todos os dias pela rua com seu carrinho, feito pelo vizinho, catando materiais recicláveis (Foto: Laila Braghero/O Semanário)

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Publicada na página 9 da edição 1150 do jornal O Semanário, em 9 de maio de 2014.