‘Procuramos nos dedicar ao máximo e falar o quanto menos’, diz Proença

Concessão do estádio, reabertura da UTI e o mau cheiro na Pio XII são alguns dos assuntos da entrevista

(Foto: Túlio Darros/O Semanário)

Segundo Proença, no que diz respeito ao desenvolvimento econômico da cidade, 70% do plano de governo já foi cumprido (Foto: Túlio Darros/O Semanário)

Há exatos 309 dias de mandato, após 75 dias de atraso para assumir a prefeitura, devido ao processo movido pela Justiça Eleitoral, Rodrigo Proença, 39, revela ter cerca de 60% do plano de governo cumprido, metas estas almejadas por 16.445 capivarianos, os quais acordaram cedo – ou não – no dia 7 de outubro de 2012 e confiantes foram às urnas para eleger o administrador e ex-vereador a Prefeito de Capivari.

Em entrevista exclusiva ao jornal O Semanário, Proença fala sobre o que já foi conquistado para a cidade, assim como os problemas que ainda existem em vários setores, sobretudo no que diz respeito aos serviços de utilidade pública. Dentre os assuntos polêmicos, o prefeito defende o pedido de concessão do Estádio Carlos Colnaghi ao Capivariano e questiona críticas feitas por vereadores.

Jornal O Semanário Regional: Em 2013, o que foi cumprido do prometido no plano de governo? Caso tenha alguma conquista importante que não constava no plano, cite, por favor.

Rodrigo Abdala Proença: Nós já cumprimos 60% do plano de governo em algumas áreas e até 70% em outras, como foi o caso do desenvolvimento econômico, com mais qualificações e a vinda de empresas e novas indústrias na cidade. Além disso, tivemos a regularização do Distrito Industrial II, em frente à Microsal, e depois de 22 anos o Distrito Industrial I receberá pavimentação, com investimento de R$ 7,3 milhões.

Também tivemos a instalação da Mitsubishi, por meio de um investimento em torno de R$ 500 milhões e faturamento de R$ 100 milhões ao ano, assim como a geração de aproximadamente 150 empregos. E no final do ano, compramos um terreno de 121 mil metros para o Distrito Industrial III (R$ 2 milhões).

Na área da saúde, nós avançamos bastante, por meio das subvenções para a Santa Casa, regularização das consultas e das agendas e aquisição de novos pediatras e dentistas para os bairros. E em relação à habitação, vamos assinar o convênio das 225 casas populares.
Assim, conseguimos atingir grande parte do plano de governo, mesmo o tendo começado, infelizmente, com atraso de 75 dias, devido ao processo judicial que dificultou o início do mandato.

O Semanário: Quais foram as principais dificuldades no primeiro ano de administração?

Proença: Nós assumimos a prefeitura com o município inadimplente. Os bloqueios e sequestros dos repasses que vinham para a cidade estavam bloqueados. Tivemos que regularizar essa situação, senão o município não conseguiria firmar novos convênios, nem trazer recursos do Estado e da União. Esta foi a maior dificuldade.

Também tínhamos dívidas com fornecedores e dívidas trabalhistas. Então regularizamos a situação e somente depois pudemos fazer novos investimentos. No entanto, estas dificuldades não nos impediram de investir em áreas importantes, como na educação. O reembolso escolar aumentou 30%: de R$ 990 mil em 2012, subiu para quase R$ 1,3 milhões em 2013.

As entidades assistenciais, como Apae, Lar dos Velhinhos, Santa Rita e Casa da Sopa receberam recursos que chegam a quase R$ 1,3 milhões, ou seja, 92% a mais do que foi investido em 2012 (em torno de R$ 660 mil).

O Semanário: O que a população pode esperar do seu governo em 2014?

Proença: Pode esperar muito trabalho, como vem sendo realizado desde o primeiro dia. A gente tem trabalhado bastante. Procuramos nos dedicar ao máximo e falar o quanto menos. A gente vê hoje governos que falam, mas que executam pouco. Nosso governo tem sido diferente.

Graças a Deus esses resultados estão acontecendo até antes do esperado e vamos continuar dessa forma. Temos uma equipe fantástica, maravilhosa, de secretários que se dedicam, se doam, no dia a dia para que toda a demanda da população seja atendida da melhor maneira possível.

O Semanário: Avalie a saúde pública da cidade.

Proença: Temos muito que avançar ainda. Muito já foi feito, mas nós vamos avançar mais em 2014, com a abertura do Centro Materno Infantil, no antigo Prédio da Terceira Idade [Avenida Belmiro Guitti], que é o atendimento especializado para a mãe e para a criança. Oferece desde ginecologista, pediatra, obstetra, até vacinação. Tudo em um único lugar. Com isso, vamos melhorar ainda mais o planejamento familiar.

Teremos também a abertura da Unidade de Pronto Atendimento (UPA), provavelmente, a partir de abril, com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e a reabertura da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) da Santa Casa nos próximos dias, que é a entidade que mais recebe, hoje, recursos do município. Entre recursos estaduais, federais e municipais, em 2013 a Santa Casa recebeu aproximadamente R$ 7,8 milhões.

O Semanário: Quando você diz reabertura “nos próximos dias”, seria até o final de janeiro?

Proença: Na verdade, essa questão fugiu das mãos da prefeitura. A Santa Casa precisa se adequar às exigências da Vigilância Sanitária Estadual (Visa), a qual irá autorizar a reabertura da UTI. Nós estamos equipando e ajudando, por meio de contatos que fazemos com empresas da cidade, para conquistar camas e parte dos equipamentos, mas a regularização depende do estado.

A Santa Casa tem procurado se adequar, e nós, como prefeitura, fomos buscar recurso junto a outros municípios. Para a manutenção mensal da UTI, por exemplo, é preciso R$ 300 mil. Metade desse valor, Piracicaba vai bancar (R$ 150 mil); R$ 80 mil é um dinheiro que vem do SUS, completando R$ 230 mil. E faltam R$ 70 mil, que vai ser de que forma: R$ 25 mil de Capivari, R$ 25 mil de Elias Fausto, R$ 10 mil de Rafard e R$ 10 mil de Mombuca. Assim, fechamos os R$ 300 mil, que é mais ou menos o custo diário (R$ 1 mil) de uma UTI com 10 leitos.

O Semanário: Quais foram os projetos voltados à preservação da natureza realizados no ano anterior? O que ainda será feito?

Proença: Nós temos a Diretoria de Meio Ambiente, que é a Karen, hoje, quem comanda. Ela é uma pessoa fantástica e idealista. Muitas questões relativas ao plano de arborização da cidade já existem, mas primeiro estamos cuidando das heranças que nos foram deixadas, que são três lixões: Bresciani, Portela e Annicchino. Eles vêm de muito tempo, de administrações passadas.

As últimas, principalmente, os empurraram com a barriga e nós vamos ter que fazer a investigação confirmatória para saber o que existe nesses locais. É uma exigência da Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental (Cetesb) e já está na justiça, com multas sendo cobradas pelo município não ter feito essa investigação antes. Cada estudo custa em torno de R$ 300 mil.

Nós entramos em contato com um programa do estado chamado Apoio Tecnológico aos Municípios (Patem), para conseguirmos recursos, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, para o tratamento de décadas desses lixões. E também estamos preparando o local para receber o Resto da Construção Civil (RCC).
Além disso, setembro de 2014 é o prazo limite para que as cidades se enquadrem nos planos de resíduos sólidos. A coleta seletiva, por sua vez, provavelmente se iniciará em julho na parte central.

O Semanário: O que você tem a dizer a respeito da polêmica criada acerca do projeto de concessão do Estádio Municipal Carlos Colnaghi ao Capivariano Futebol Clube?

Proença: Isso sempre existiu. O município sempre investiu no Estádio Carlos Colnaghi para dar condições ao Capivariano Futebol Clube de jogar. E vou mais longe: o estádio foi construído em 1992 para o Capivariano, para atender as exigências da Federação Paulista de Futebol.

Nós queremos regularizar essa situação. Atualmente, não existe um contrato de cessão de uso parcial. E é essa a proposta que estamos apresentando aos vereadores, mas alguns quiseram desvirtuar a discussão, porque o vice-prefeito é filho do presidente do clube. Entretanto, no nosso plano de governo está “apoio total ao Capivariano”, bem como a regularização do estádio, no que diz respeito ao Corpo de Bombeiros, ao Ministério Público, à Polícia Militar e à adequação ao Estatuto do Torcedor.

Capivari sempre pagou pelas arquibancadas, sempre fez investimentos dentro do estádio. Agora, nós apenas queremos regularizar isso, fazer um contrato, para que o município se isente, sobretudo, de alguma briga de torcida que possa acontecer, o que acaba por penalizar a cidade, mesmo não sendo ela a responsável pelo evento. Mas infelizmente isso existe na política: pessoas que gostam de desvirtuar.

Porém, o projeto volta para a câmara em fevereiro. Nós iremos sentar com os vereadores para tentarmos explicar – àqueles que não entenderam o projeto, acredito eu – e fazer inclusive adequações, porque temos sugestões de alguns vereadores que são importantes e precisam ser incluídas.

O Semanário: O que o Governo Municipal tem feito para descobrir a origem e acabar com o mau cheiro na Avenida Pio XII, próximo à entrada do Parque Ecológico?

Proença: Nós vamos acionar a Cetesb, por meio da Diretoria de Meio Ambiente, pois já temos algumas denúncias na ouvidoria. Somente o órgão ambiental pode analisar de onde vem o cheiro da Pio XII e qual é realmente a causa.

O Semanário: O mesmo odor pode ser sentido próximo ao Rio Capivari. A prefeitura ou a Cetesb têm tomado providências na fiscalização e resolução desse problema, que afeta o bem-estar dos cidadãos?

Proença: O que acontece: questões ambientais de baixo impacto são de responsabilidade do município, mas esse caso eu acredito que já é competência da Cetesb. Por isso, iremos acioná-la, e então ela poderá fazer um levantamento.

O Semanário: Avalie a situação econômica de Capivari. Houve mudança significativa?

Proença: Sim. Se você pegar o número de atendimentos no Posto de Atendimento ao Trabalhador (PAT), você vai ver que ele cresceu mais de 300%. Criamos uma secretaria itinerante, que é a Secretaria de Desenvolvimento Econômico nos bairros. Nós levamos toda uma estrutura nos bairros, para as pessoas que tem dificuldade de ir à unidade durante a semana.

Nosso governo também vem fornecendo cursos de qualificação. Muitos desses cursos pagam para o aluno, ou seja, a pessoa recebe em torno de R$ 400 para se qualificar. Assim, nós tentamos provocar, chamamos, vamos aos bairros, mas infelizmente não conseguimos novos cursos, porque faltaram pessoas para fechar as turmas.

Dentro dos 70% do plano de governo atingido, no que diz respeito ao desenvolvimento econômico, estão esses novos cursos e a Mitsubishi. Fica faltando apenas o Centro Paula Souza, uma questão que estamos tratando junto ao Governo do Estado. A cidade tinha classes descentralizadas, na administração anterior, e perdeu. Com isso, hoje temos o trabalho de retomar as negociações, para trazermos o Centro Paula Souza de volta.

Temos uma infraestrutura nos distritos industriais, com gás natural, rede de esgoto e tratamento, e agora com a compra do terreno para a construção do Distrito Industrial III e pavimentação do I. Tudo isso faz parte do crescimento e do desenvolvimento econômico pretendido para os próximos três anos.

O Semanário: E houve aumento na arrecadação municipal?

Proença: Todas as empresas novas que vem para a cidade, assim como as que estão se expandindo hoje, demoram dois anos para dar o retorno do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Por exemplo, uma empresa que fatura R$ 100 milhões por ano, volta em torno de R$ 7 milhões para o município, que é a cota parte do ICMS.

Mas se ela começou a faturar esse ano, só dará retorno ao município a partir de 2016. Então, ainda não temos em números o quanto isso significa hoje.

O Semanário: Quais os planos de geração de empregos?

Proença: Nós estamos trabalhando com várias frentes, que são os cursos através do Via Rápida Emprego, qualificando a mão de obra como diferencial para atrair novas empresas; a vinda do Centro Paula Souza e as parcerias com o Sebrae, com o Senai e com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP).

E estamos preparando o município com toda a infraestrutura necessária, gás natural, água e esgoto, energia, além de doarmos terrenos para as empresas que participam de uma concorrência. No início do ano, criamos uma lei de incentivo fiscal, também para atrair novas empresas.

O Semanário: Como “anda” o projeto de expansão da cidade? Fale um pouco mais sobre os distritos industriais.

Proença: Definimos esse ano como o ano do Plano Diretor. Ele foi criado em 2006, mas não está de acordo com Capivari, pois foi copiado de outra cidade. O Plano Diretor dá as diretrizes e faz com que o município cresça ordenadamente. Nós estamos revendo esse plano, com relação às áreas industriais, comerciais, de interesse social e habitacional.

O trabalho será feito até setembro de 2014. O secretário de Desenvolvimento Econômico Flavio Baggio é quem irá “puxar” a discussão, uma vez que é preciso seguir todas as etapas exigidas pelo Ministério das Cidades, como criar audiências públicas, consultar a população e fazer com que ela participe.

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Publicada na página 10 da edição 1134 do jornal O Semanário, em 17 de janeiro de 2014.

Queda de energia deixa bairros sem água

Após incêndio na subestação, interrupções acontecem com frequência

De uns tempos para cá, os moradores de Capivari e Rafard têm se queixado de constantes quedas de energia, que permanecem por quase cinco horas. Acionada pela Prefeitura de Capivari na metade de dezembro, a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL Paulista) justificou as interrupções, dizendo ser devido ao incêndio ocorrido em novembro do ano passado, na subestação de Capivari.

Com isso, a companhia substituiu dois transformadores, inicialmente, por um provisório, e alertou a prefeitura sobre as possíveis quedas. Entretanto, segundo o Prefeito Rodrigo Proença (PPS), o transformador definitivo já foi colocado pela CPFL Paulista na primeira semana de dezembro.

A par da situação, O Semanário questionou pessoas por meio da rede social Facebook, e recebeu a informação de que a conta de energia referente ao último mês também não havia sido entregue em diversas casas nas duas cidades.

Em nota, a CPFL Paulista afirma que “o temporal, acompanhado de fortes ventos e descargas atmosféricas (raios), que atingiu a região de Capivari e Rafard, na tarde de terça-feira, 14, causou danos na rede elétrica”. Segundo o Centro de Operações da empresa, das 15h14 às 19h39, 32 clientes ficaram sem energia na Rua B (Jardim do Bosque), enquanto 168 clientes foram afetados das 14h31 às 17h02 na Rua Natale Dal Fabro (São João), ambos bairros de Capivari.

No entanto, de acordo com as reclamações geradas pelos usuários do Facebook, ao menos 11 bairros de Capivari e os dois de Rafard (Centro e Popular) apresentam interrupções no fornecimento de energia elétrica. A respeito das contas não entregues, a CPFL Paulista não se pronunciou.

A Prefeitura de Capivari informou que também está tendo prejuízos com as quedas. Além de terem perdido alguns equipamentos, neste fim de semana a falta de energia brusca queimou duas bombas de fornecimento de água (Paulino Galvão e Sgariboldi), deixando os bairros Nova Aparecida e Vila Fátima sem água no sábado e no domingo.

Os clientes que tiverem problemas de falta de energia podem entrar em contato com a CPFL Paulista através dos seguintes canais de atendimento: 0800-010-1010/www.cpfl.com.br (acesso via smartphone).

A companhia também garante que é possível procurar o atendimento presencial “em todos os municípios atendidos”. Todavia, não existe posto de atendimento em Capivari ou Rafard, sendo o mais próximo em Piracicaba.

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Publicada na página 9 da edição 1134 do jornal O Semanário, em 17 de janeiro de 2014.

Um homem e uma vontade de viver: história para pensar

João Corrêa descobriu os primeiros tumores aos 46, e junto, o amor pelo artesanato

Dentre as inúmeras peças, seu João gosta de fazer cadeiras de bambu (Foto: Laila Braghero)

Dentre as inúmeras peças, seu João gosta de fazer cadeiras de bambu (Foto: Laila Braghero/O Semanário)

O que você faria se descobrisse que tem câncer? Entraria em desespero, tal qual naquele dia em que se deparou com uma cobra no quintal, ou aquela outra vez em que encontrou uma barata dentro de casa? Bom, Seu João sempre manteve a calma quando achava escorpiões no terreno da antiga residência. Não seria agora, ao descobrir a doença, que iria perder as estribeiras. Então, decidiu que continuaria vivo, com todos os significados que essas quatro letras podem carregar, de acordo com a percepção de quem as lê.

E é assim que, numa simples casa de portão azul claro, na calma Rua Moacir Moraes de Barros, em Rafard, o ex-cabo e massagista do Exército, seu João Corrêa, 60, segue em frente com a esposa, dona Clarice, 58.

Há 14 anos, aconteceu a primeira operação, para tirar dois tumores do “céu da boca”. Sete anos depois, outro tumor, dessa vez no maxilar, encontrando com a língua, ocasionando em mais uma cirurgia. Para a recuperação, os médicos puseram uma espécie de arame segurando a mandíbula. Não demorou muito e o ouvido direito foi perfurado, e seu João precisou ser operado pela terceira vez.

Hoje, o motorista, que durante 30 anos também trabalhou em usina, fala e come com dificuldade, pois não tem mais a língua, parte da gengiva e nem alguns ossos do rosto. Para preencher as lacunas, foi preciso retirar uma quantia de pele da barriga. Os doutores da Unicamp, que nunca haviam realizado uma cirurgia como essa, disseram que o homem poderia não sobreviver, e se resistisse, não falaria.

Mas ele falou. Então trataram de avisar o casal que Corrêa só poderia se alimentar por meio de uma sonda. E mais uma vez ele deu a volta por cima das estatísticas, e garante que come e bebe de tudo – batido liquidificador de dona Clarice, é claro – mas nem a pinguinha escapa vez ou outra.

Quanto menor o carrinho, mais tempo o artesão leva para construir (Foto: Laila Braghero)

Quanto menor o carrinho, mais tempo o artesão leva para construi-lo (Foto: Laila Braghero)

Depois de tanto corre, corre e recém-saído da usina, devido à doença, o pai de Kátia, 28, William, 30, e Rosimari, 36, pensou: “o que eu vou fazer agora?”. E tão rápido quanto um raio de luz, resolveu que dali para frente se dedicaria ao artesanato, cuja arte aprendeu sozinho, tentando, entre uma lixada e outra, construir um delicado carrinho de madeira.

“Os maiores demoram 10 dias. Os pequenos eu demoro mais, em torno de 20 dias. Quanto menor, mais lento para fazer”, explica seu João, apresentando uma variedade de carrinhos em tamanhos, modelos e cores. Além dos delicados automóveis de mentirinha, o homem comenta que também gosta de inventar cadeiras de bambu e garrafões de vidro para colocar água.

Amola alicatinho de unha, faca, serrote, e ainda sobra tempo para atender o pessoal com problema na coluna e múltiplos “mau jeitos”. “Hoje já vieram seis. Tem gente que chega curvado, se consultou com o médico, gastou com uma porção de remédios, mas não adiantou. Aí, vem aqui e em poucos minutos eu coloco a coluna no lugar. A pessoa nem sente”, esclarece o massagista.

Segundo seu João, vencer na vida é “ter uma fé que não seja de meio termo. É não cuidar da vida de ninguém, assim como não julgar e não falar mal”. Para o marido da dona Clarice, de nada adianta se desesperar frente a uma dificuldade, uma vez que “quanto mais nervoso você fica, pior se torna a situação também”. Considerado por estudiosos da área como exemplo de vida, ele afirma que é preciso aceitar o câncer.

“O João conheceu pessoas que tiveram a doença depois dele e não sobreviveram por mais de oito meses. Os médicos dizem coisas para justificar as mortes, mas para mim, muitos se tornam depressivos, não sabem lidar com a situação, e isso só piora o quadro”, conta a mulher dele.

Soltando a criatividade, ajudando o próximo, sorrindo. Assim vive seu João Corrêa, com seus artesanatos espalhados pela casa, a quem interessar possa, já que na feira não dá mais para expor. “Alguns davam risada de mim, então parei”, diz, sem mágoas no olhar. Aos que vão visitá-lo ele mostra, e vende, e conversa, mas as encomendas também chegam pelo telefone*.

“Se preciso fosse, eu viveria ajoelhado e com as mãos para o céu dizendo ‘obrigado, obrigado e obrigado, Senhor’. Mesmo com tantas dificuldades, eu não reclamo. Eu vivo normalmente. Eu posso comer. Minhas refeições duram cerca de uma hora, mas valem a pena. Eu sou muito feliz”.

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Publicada na página 7 da edição 1154 do jornal O Semanário, em 17 de janeiro de 2014.

Padre João se despede de Capivari

Celebração foi marcada por emoção e homenagens

(Foto: Toninho Junqueira)

Prefeito de Capivari agradeceu o padre Quaresma pelos oito anos de dedicação à Paróquia São Benedito  (Foto: Toninho Junqueira)

Na noite de domingo, 12, o padre João Quaresma celebrou sua última missa na Paróquia São Benedito, como pároco da comunidade. Quaresma, que está na cidade desde 2006, partiu para Piracicaba, por volta das 21h, onde tomará posse da Paróquia Santa Clara, no bairro Cecap.

Ao final da celebração, o padre foi homenageado pelos fiéis da Matriz e das capelas, e recebeu uma placa de bronze em agradecimento aos oito anos de dedicação à paróquia, a qual, em seguida, foi colocada na entrada da igreja.

O prefeito Rodrigo Proença (PPS) também esteve presente na missa. Em nome da comunidade, Proença lembrou Quaresma sobre a frase usada pelo pároco para encerrar as celebrações. “O que o senhor sempre nos diz, agora sou eu quem quer lhe desejar: ide em paz, e que o Senhor sempre o acompanhe”, disse o prefeito.

Ainda nessa semana, o padre Alcídio Laurindo Filho (Nino) assume a Paróquia São Benedito, em celebração marcada para quarta-feira, 15, às 19h30, na igreja Matriz.

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Publicada na página 9 da edição 1134 do jornal O Semanário, em 17 de janeiro de 2014.

Subprodutos da indústria canavieira são mote do planeta sustentável

Usinas substituem adubos minerais por torta de filtro e vinhaça

Adubação orgânica da cana utiliza resíduos que, quando descartados, causavam impactos ambientais (Foto: Laila Braghero)

Adubação orgânica da cana utiliza resíduos que, quando descartados, causavam impactos ambientais (Foto: Laila Braghero)

Já é sabido que o uso do biocombustível como alternativa energética chama a atenção de outros países para o celeiro do mundo, maior produtor de cana-de-açúcar e o primeiro a produzir açúcar e etanol. Dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento revelam que o Brasil é o responsável por mais da metade do açúcar comercializado no mundo. Até 2019 o país deve alcançar a taxa média de aumento da produção de 3,25% e colher 47,34 milhões de toneladas do produto. Para exportações, o volume previsto é de 32,6 milhões de toneladas no mesmo ano.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), até a segunda semana de outubro a venda de açúcar apresentou aumento de 25,7% comparado com o mesmo mês de 2011. Os embarques diários passaram de US$ 73,953 em outubro do ano passado para US$ 92,978 milhões no mesmo período este ano. Sendo assim, a commodity está entre os três produtos mais vendidos pelo Brasil temporariamente, ultrapassando o petróleo e auxiliando no aumento da Balança Comercial.

O consumo interno de etanol também tem tido acréscimos expressivos. A produção projetada para 2019 é de 58,8 bilhões de litros, mais que o dobro da registrada em 2008. O consumo interno está cogitado em 50 bilhões de litros e as exportações em 8,8 bilhões. Porém, lado a lado aos avanços significativos no agronegócio como um todo perduram as diversas discussões a respeito dos impactos ambientais causados pelas indústrias do setor que mais movimenta a economia do país.

Para que esse problema seja minimizado as empresas realizam constantemente diversas pesquisas e investimentos na modificação de processos, adoção de sistemas integrados e melhorias técnicas, de forma que sejam reduzidas as emissões de poluentes sonoros e do ar. A International Finance Corporation (IFC) – maior instituição de desenvolvimento global para o setor privado nos países em desenvolvimento – membro do Grupo Banco Mundial, aponta o Brasil como modelo para a produção sustentável de cana-de-açúcar e seus derivados.

Torta de filtro pode ser aplicada desde a extensão total do campo até nos sulcos de plantio (Foto: Laila Braghero)

Torta de filtro pode ser aplicada desde a extensão total do campo até nos sulcos de plantio (Foto: Laila Braghero)

Uma das usinas visitadas pelos especialistas da IFC foi a Usina São Martinho, localizada na cidade de Pradópolis, interior de São Paulo, que está entre as maiores usinas de processamento de cana no mundo. Lá, assim como na maioria das indústrias da esfera, é feita a substituição de adubos químicos por subprodutos da cana, tais como a torta de filtro e a vinhaça. A torta de filtro, gerada a partir da clarificação do caldo de cana, é rica em fósforo e matéria orgânica e supre as necessidades nutricionais agrícolas. “Nós pegamos esse material e o trabalhamos junto ao esterco de galinha, proveniente de granjas da região, rico em outros nutrientes”, explica o diretor executivo da Agência de Fomento de Energia de Biomassa (Bioagência), Tarcilo Rodrigues – mais de 26 anos de experiência no setor sucroalcooleiro.

“Misturando a torta de filtro com o calcário e gesso, criamos um composto orgânico que é aplicado na adubação”. Fazendo isso, a usina contribui para a redução da poluição ambiental, visto que antes o subproduto era despejado nos rios. Além disso, ao retornar na terra o que foi extraído pela própria planta, a empresa adquire uma economia média nos custos do plantio de US$ 60 por hectare, já que deixa de importar adubos minerais.

A vinhaça é um resíduo do processamento de destilação da produção do etanol, rica em potássio, cálcio, magnésio, enxofre e micronutrientes. Cada litro de álcool fabricado gera 13 litros de vinhaça, que também era jogado nos rios. Rodrigues afirma que hoje 100% desse produto é reutilizado de maneira correta, obedecendo as normas da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) de concentração de nutrientes por metro quadrado: “Aplicamos esse material de maneira racional, porque onde fazemos isso também deixamos de importar adubo do Canadá, Rússia e de outros países”.

Partindo do princípio de autossuficiência é possível obter bons resultados para a agricultura ao mesmo passo em quem se vestem algumas práticas sustentáveis de baixo custo. Enquanto a vinhaça é responsável pelo aumento do pH e crescimento da atividade biológica do solo, a torta de filtro possui alto teor nutricional já no primeiro ano de aplicação. E ambos podem ser obtidos de forma fácil por serem gerados na própria indústria canavieira.

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(*) Reportagem publicada no site laboratório Sou Repórter, do curso de Jornalismo da Unimep, para concorrer ao V Prêmio Abag de Ribeirão Preto (Abag/RP) de Jornalismo José Hamilton Ribeiro, em 25 de outubro de 2012.